Em 1929, Jesse Livermore ganha cerca de cem milhões de dólares apostando na queda de Wall Street. Cinco anos depois, está falido. Mesmo assim, ele conhecia as regras do ofício melhor do que ninguém, a ponto de escrevê-las. A vida dele continua sendo o caso mais claro da distância entre o que um trader sabe e o que ele faz.

O nome de Livermore aparece sempre que se fala de psicologia do trading, quase sempre por meio de Reminiscences of a Stock Operator, o livro que Edwin Lefèvre tirou da vida dele em 1923. Todo mundo cita as frases dele, pouca gente lembra da trajetória. Só que é ela que mais ensina: um garoto que entendeu o mercado aos quinze anos, que venceu Wall Street várias vezes e que acabou perdendo para si mesmo.

Este artigo reconstitui a vida dele a partir de fontes verificáveis, coloca as regras dele diante dos seus atos e tira disso o que serve para um trader de hoje. Os valores são os da época: os cem milhões de dólares de 1929 equivalem a mais de um bilhão e meio de dólares atuais.

ResumindoJesse Livermore (1877-1940) é o especulador americano mais famoso do início do século XX. Office boy aos 14 anos, ele ganha um milhão de dólares em um único dia durante o pânico de 1907, depois cerca de cem milhões vendendo a descoberto durante o crash de 1929, antes de ir à falência em 1934 e tirar a própria vida em 1940. As regras dele (seguir a linha de menor resistência, cortar as perdas, deixar os ganhos correrem, recusar dicas) ainda são ensinadas. A verdadeira lição é psicológica: ele sabia o que fazer e nem sempre fez.

Quem foi Jesse Livermore?

Jesse Lauriston Livermore nasce em 26 de julho de 1877 em Shrewsbury, em Massachusetts, numa família de agricultores. Aos quatorze anos, o pai o tira da escola para trabalhar na roça. Ele parte para Boston com a bênção da mãe e consegue um emprego de anotador de cotações na PaineWebber: por cinco dólares por semana, copia a giz, num grande quadro-negro, os preços que saem do teletipo.

Tudo começa aí. De tanto escrever os preços, ele percebe que eles não se movem ao acaso e que certas sequências muitas vezes anunciam o que vem depois. Segundo Reminiscences, ele anota suas observações num caderninho, bem antes de ousar operar. Esse caderninho é, no fundo, o seu primeiro diário de trader. O detalhe importa para o resto da história: o homem que mais perdeu contra as próprias regras começou observando-as com um rigor de contador.

O “Boy Plunger” dos bucket shops

Aos quinze anos, ele tem o primeiro lucro: 3,12 dólares em cinco ações da Chicago, Burlington and Quincy Railroad, negociadas num bucket shop. Essas casas, muito numerosas na época, não compravam ação nenhuma. Lá se apostava no preço exibido no quadro, com um depósito minúsculo, e a posição era encerrada automaticamente assim que o depósito acabava. Uma espécie de cassino colado na bolsa.

Livermore se sai tão bem ali que larga o emprego aos dezesseis anos. Ele chega a ganhar duzentos dólares por semana, recebe o apelido de “Boy Plunger”, e as casas de Boston acabam fechando as portas para ele. Por volta dos vinte anos, já tinha juntado cerca de dez mil dólares, uma fortuna para um filho de agricultor.

A primeira armadilha já está ali, e ele não a vê. O método dele foi feito para um mercado falso, em que a ordem é executada ao preço exibido, sem espera nem slippage. Quando ele se muda para Nova York em 1900 para operar ações de verdade com um corretor de verdade, o método para de funcionar: as ordens dele são executadas mais tarde, a outros preços. Uma estratégia que ganha num ambiente protegido pode perder no mundo real. É toda a distância que separa um backtest de um teste em condições reais.

De 1901 a 1907: arruinado, depois milionário em um dia

O começo em Nova York é brutal. Em 1901, ele transforma dez mil dólares em meio milhão com a Northern Pacific Railway. No mesmo ano, uma posição carregada com alavancagem de 400% o arruína, e ele precisa pegar dois mil dólares emprestados com Edward Francis Hutton, fundador da corretora E. F. Hutton, para recomeçar.

Em 1906, de férias, ele abre uma grande posição vendida na Union Pacific Railroad na véspera do terremoto de São Francisco e embolsa 250.000 dólares. Ele mesmo diria depois que vendeu por uma intuição que não sabia explicar. É o tipo de tacada que estraga um trader: um ganho espetacular, obtido sem motivo claro, ensina sobretudo a confiar no instinto e, portanto, a ouvir menos o próprio método.

Chega o pânico de outubro de 1907. Os bancos balançam, o mercado desaba, e Livermore, vendido a descoberto, ganha um milhão de dólares num único dia. Segundo a história contada, J. P. Morgan manda pedir que ele pare de vender para não agravar a crise. Ele atende, vira a mão para a compra e aproveita o repique. Aos trinta anos, vale três milhões de dólares. Compra um iate de 200.000 dólares, um vagão de trem particular e um apartamento no Upper West Side.

1908: a fortuna perdida por causa de uma dica

No ano seguinte, ele comete o erro que passaria o resto da vida denunciando. Theodore Price, negociante de algodão muito conhecido, o convence a comprar algodão. Livermore age contra a própria leitura do mercado e, enquanto ele compra, Price vende em segredo. A maior parte dos ganhos de 1907 vai embora ali.

Reminiscences conta o episódio com nomes fictícios. O livro também descreve, da mesma época, um reflexo mais banal e ainda mais revelador: com trigo, que subia, e algodão, que caía, na carteira ao mesmo tempo, ele vende o trigo vencedor e fica com o algodão perdedor, no qual ainda aumenta a posição. Cortar o vencedor, alimentar o perdedor: é exatamente o contrário do que ele vai ensinar. Reforçar uma posição que vai contra você transforma um erro em desastre, a mesma mecânica do revenge trading, muito antes de essa vingança contra o mercado ganhar um nome.

Ele tira disso uma regra que vai repetir até o fim: nunca operar com base na opinião de outra pessoa. Uma dica, mesmo vinda de um especialista, é um trade que você não analisou, portanto um trade do qual você não sabe quando sair.

1915: a falência, depois a volta por cima

As perdas no algodão e os anos magros que vêm depois o levam à falência em 1915. Nem por isso ele desaparece. A partir de 1917, uma série de trades bem-sucedidos o coloca de pé de novo, e Reminiscences o mostra pagando os antigos credores, mesmo que a falência o tivesse liberado dessa dívida. Em 1918, ele se casa pela segunda vez, com Dorothy Wendt, ex-dançarina das Ziegfeld Follies, com quem terá dois filhos, Jesse Jr. e Paul.

Essa capacidade de se reerguer faz parte da lenda dele, e ela é real. Ela também tem um lado ruim: a cada retorno, ele retoma os mesmos hábitos de vida e o mesmo gosto pela tacada enorme. Ele não volta mais prudente, volta mais seguro de si.

1929: cerca de cem milhões com o crash

O auge da carreira dele é também o episódio mais mal compreendido. Já em 1929, convencido de que o mercado tinha subido demais, ele começa a vender a descoberto, espalhando as ordens por mais de cem corretores para esconder o que está fazendo. Mesmo assim, o mercado continua subindo, e na primavera americana ele perde mais de seis milhões de dólares no papel.

Em outubro, Wall Street desaba. Livermore embolsa cerca de cem milhões de dólares, uma das maiores fortunas do país. O público o culpa pelo crash, ele recebe ameaças de morte e contrata um guarda-costas armado. Ter razão cedo demais custa caro: a convicção dele estava certa, mas precisou atravessar um drawdown que a maioria das contas não teria aguentado.

1934: a terceira falência

Ninguém sabe exatamente como ele perdeu essa fortuna. Os anos que seguem o crash misturam trades perdedores num mercado que ficou imprevisível, um padrão de vida altíssimo e uma vida pessoal que desmorona. O divórcio de 1932 lhe custa um acordo de dez milhões de dólares. A casa de Great Neck, que tinha custado 3,5 milhões, é revendida por 222.000 dólares.

Em 7 de março de 1934, ele é suspenso do Chicago Board of Trade. O pedido de falência, o terceiro, aponta 84.000 dólares de ativos para 2,5 milhões de dívidas. No ano seguinte, um drama familiar vai parar nas manchetes: o filho mais velho, de dezesseis anos, é ferido a tiro pela mãe durante uma briga. Livermore passa então por longos períodos de depressão.

Jesse Livermore fotografado em novembro de 1940, o ano do seu único livro (foto de imprensa da Acme, domínio público).
Jesse Livermore fotografado em novembro de 1940, o ano do seu único livro (foto de imprensa da Acme, domínio público).

O que ele sabia: as regras de Livermore

Em março de 1940, Livermore publica How to Trade in Stocks, o único livro escrito por ele mesmo. Nele, expõe um método que Reminiscences só deixava entrever. Estes são os princípios que voltam no livro dele e em Reminiscences, os mesmos que os traders ainda citam um século depois.

“Os inimigos do especulador estão sempre dentro dele. Ter esperança e ter medo são inseparáveis da natureza humana. Quando o mercado vai contra você, você torce para que cada dia seja o último, e perde mais do que deveria. Quando ele vai a seu favor, você tem medo de que o dia seguinte leve embora o seu lucro, e sai cedo demais.” (Reminiscences of a Stock Operator)

Essa passagem resume sozinha o que hoje chamamos de medo e ganância: a esperança faz segurar os perdedores, o medo faz cortar os vencedores. Livermore tinha descrito isso com uma precisão clínica. Saber disso não o protegeu.

O que ele fazia: o grande abismo

Colocados lado a lado, os episódios da vida dele desenham um padrão sem mistério. Livermore não perdia por não saber o que fazer. Perdia nos momentos em que as emoções passavam na frente das regras, e esses momentos chegavam quase sempre logo depois de uma grande vitória, ou em plena aflição.

O que ele escreveuO que ele fezQuando
Nunca seguir uma dicaCompra algodão por conselho de Theodore Price, contra a própria leitura do mercado1908
Cortar rápido uma perda, nunca fazer preço médio na perdaFica com o algodão perdedor, aumenta a posição e vende o trigo vencedorPor volta de 1908
Nunca arriscar o que não se pode perderOpera com alavancagem de 400% e quebra1901
Retirar uma parte dos lucrosIate, vagão particular, casa de 3,5 milhões: a fortuna continua exposta1907 a 1932

O momento mais perigoso é o dia seguinte a cada vitória. Depois de 1907, ele se acha capaz de ler qualquer mercado, inclusive o do algodão, que conhece mal. Depois de 1929, vive como se cem milhões não pudessem evaporar. O grande ganho é o instante em que um trader se sente mais forte, e é também aquele em que ele está mais perto de quebrar as próprias regras, aumentando o tamanho da posição ou forçando a alavancagem.

Por fim, há o que nem as regras nem a disciplina cobrem. Livermore passou por longos períodos de depressão, numa época em que não se falava disso. O humor dele seguia a conta, e a conta seguia o humor. Nenhum método protege alguém que já não tem condições de aplicá-lo.

Cinco lições para um trader de hoje

1. Escrever suas regras não basta

Livermore tinha as regras na cabeça, e até no papel. O que faltava era um jeito de ver, dia após dia, o quanto ele se afastava delas. Esse é o papel de um diário de trader: não só anotar os trades, mas medir se você cumpre as suas regras de trading. No Tradoshi, esse é o trabalho da pontuação de disciplina, que verifica todo dia se você seguiu as suas próprias regras e mostra quanto a mais os seus dias disciplinados rendem. Um desvio que você vê em números é um desvio que você pode corrigir.

2. Desconfie de si mesmo logo depois de um grande ganho

Quase todas as ruínas dele nasceram na euforia. Depois de uma sequência muito boa, reduza o tamanho da posição em vez de aumentar, e releia suas regras antes do próximo trade. O overtrading depois de uma vitória custa tanto quanto o que vem depois de uma perda, ele só é mais agradável.

3. Uma dica é um trade que você não analisou

Um sinal comprado num canal, a opinião de um amigo, a convicção de um influenciador: tudo isso é o algodão de 1908. Se você não sabe por que entrou, não vai saber quando sair. A única forma de seguir uma ideia vinda de fora é passá-la pelo crivo do seu próprio método e depois assumi-la como o seu trade, com o seu stop.

4. Separe sua vida da sua conta

Livermore aconselhava retirar uma parte dos lucros. A vida dele mostra o que acontece quando se continua exposto: cada fortuna pôde voltar para o mercado. Retirar regularmente uma parte dos seus ganhos, manter uma reserva que nunca serve de margem e conhecer o seu risco de ruína são regras chatas. São elas que poupam você da trajetória dele.

5. Sua saúde mental faz parte da sua gestão de risco

O estresse, o cansaço, a tristeza ou o desânimo prejudicam as decisões bem antes que a gente perceba. Os traders que duram param quando não estão em condições, como um piloto que não voa doente. Anotar o seu estado emocional ao lado dos seus trades permite ver, com números, o quanto o seu humor custa à sua conta.

Os livros: Reminiscences of a Stock Operator e How to Trade in Stocks

Reminiscences of a Stock Operator, publicado em 1923 pelo jornalista Edwin Lefèvre, conta a vida de Livermore sob o nome de Larry Livingston. É uma biografia romanceada, baseada em entrevistas com ele, e um século depois continua sendo um dos livros mais lidos pelos traders. O livro foi traduzido para muitas línguas.

How to Trade in Stocks é o único livro escrito pelo próprio Livermore, publicado em março de 1940, poucos meses antes da morte dele. Vendeu mal, com a guerra ocupando todas as atenções. Edições posteriores trazem comentários de Richard Smitten. Se você for ler só um, comece por Reminiscences: é uma narrativa, e as lições de psicologia se leem sem esforço. Outros clássicos estão na nossa seleção dos melhores livros de psicologia do trading.

O fim, em 1940

Em 28 de novembro de 1940, dia de Ação de Graças, Jesse Livermore tira a própria vida num hotel de Manhattan, aos 63 anos. Ele deixa para a mulher uma carta de oito páginas, na qual escreve que está cansado de lutar e que é um fracasso. O homem que Wall Street considerava o maior especulador do seu tempo se via assim.

A história dele não se resume a esse fim, e não deve ser lida como uma fatalidade do trading. Ela só lembra que a pressão de uma conta não termina no fechamento do mercado. Se você está passando por um período difícil, ligado ou não aos seus trades, converse com alguém. No Brasil, o CVV atende pelo telefone 188, dia e noite, de graça.

Perguntas frequentes

Quem foi Jesse Livermore?

Jesse Lauriston Livermore (1877-1940) foi um especulador americano, considerado um dos maiores traders da história. Começou aos 14 anos como anotador de cotações em Boston, ganhou um milhão de dólares em um único dia durante o pânico de 1907 e cerca de cem milhões durante o crash de 1929.

Quanto Jesse Livermore ganhou em 1929?

Cerca de cem milhões de dólares, vendendo a descoberto antes e durante o crash de outubro de 1929. Isso equivale a mais de um bilhão e meio de dólares atuais.

Como Jesse Livermore perdeu sua fortuna?

Os detalhes não são conhecidos. Entre 1930 e 1934, trades perdedores num mercado que ficou difícil, um padrão de vida muito alto e um divórcio caro o levam à terceira falência, em 1934, com 84.000 dólares de ativos para 2,5 milhões de dívidas.

Qual era a estratégia de Jesse Livermore?

Ele seguia a tendência. Esperava o preço romper um ponto pivô para entrar na direção da linha de menor resistência, cortava rápido as perdas, só aumentava as posições vencedoras e as deixava correr. Recusava dicas de terceiros.

Qual livro de Jesse Livermore ler?

Reminiscences of a Stock Operator, a biografia romanceada escrita por Edwin Lefèvre em 1923, para a história e a psicologia. How to Trade in Stocks (1940), o único livro escrito por ele mesmo, para o método.

Qual é a citação mais famosa de Jesse Livermore?

“Não há nada de novo em Wall Street.” A especulação é tão velha quanto as montanhas, explicava ele, e o que acontece hoje na bolsa já aconteceu antes e vai acontecer de novo, porque a natureza humana não muda.

Como Jesse Livermore morreu?

Ele tirou a própria vida em 28 de novembro de 1940, em Nova York, aos 63 anos, depois de anos de depressão e de uma terceira falência.

Fontes